Texto publicado originalmente no Boletim Ouranos - Ano L - Nº I, Equinócio de Setembro de 2020.
A OBSERVAÇÃO VISUAL DE METEOROS – PARTE I
COMISSÃO DE METEOROS
NÚCLEO DE ENXAMES
https://uba-meteoros.blogspot.com/
Coordenação: Diego de Bastiani
Colaboradores: Camila Vitoria Kesler Dalligna, Cristian Madoglio, Guilherme Negri, Richard de Almeida Cardial, Robert Magno Siqueira
INTRODUÇÃO
O estudo de meteoros sempre foi uma atividade de grande interesse. Hoje com todas as informações disponíveis em livros e pela internet para muitas pessoas, famílias e grupos de astrônomos amadores estão a observar o céu em busca de meteoros como uma atividade envolvente e prazerosa. A Comissão de Meteoros quer ir além da contemplação do céu. Queremos criar um movimento em que as pessoas tenham conhecimento mais aprofundado desta área, queremos que as pessoas tenham condições e orientações básicas para fazer suas anotações e registros, contribuindo com a ciência. Assim, seremos mais que contempladores, seremos cidadãos cientistas, pessoas que amam observar o céu e que contribuem com a ciência.
1. O QUE SÃO METEOROS?
 |
Fig. 1 - Leo Froes - https://leofroes.com/ |
Você está olhando pela janela de sua casa ou sentado na varanda contemplando o céu e de repente viu um rastro luminoso cortando o céu e fica admirado. Desde criança ouvimos falar que esses rastros no céu são estrelas cadentes, uma estrela que caiu do céu e significa sorte, então cruzamos os dedos e fazemos um pedido.
Por muitas gerações esse o termo estrela cadente foi interpretado desta forma e os contos populares deram uma pitada de mistério. Na verdade esses traços luminosos que observamos no céu são chamados de meteoros e que em nada influenciam em nossas vidas.
Quando avistamos meteoros no céu, estamos observando um fenômeno luminoso que ocorre entre 60 e 120 km de altitude e não o objeto em si. Segundo Mourão (2004), “meteoro [...] é o fenômeno luminoso que ocorre na atmosfera terrestre, proveniente do atrito de um corpo sólido, oriundo do espaço, com os gases da atmosfera terrestre”.
Esse corpo sólido que entra na atmosfera do planeta podendo ser um detrito de um Cometa, Asteroide ou meteoroide (entenderemos essa diferença em um próximo artigo) na ordem de 1 metro a alguns microns. Eles estão em movimento no espaço com velocidades entre 40 mil e 270 mil km/h! A alta velocidade e o atrito do objeto sólido aquecem os gases da atmosfera, mesmo os corpos pequenos conseguimos observar sua entrada, e por isso chamamos esse fenômeno luminoso de Meteoro.
2. CHUVA DE METEOROS
Em determinadas épocas do ano é observado um acréscimo de meteoros que parecem surgir de uma mesma região do céu. Chamamos esse evento de Chuva de Meteoros. “Toda chuva de meteoros parece ter sua origem num ponto particular do céu, denominado radiante” (MOURÃO, 1987).
 |
Fig. 2 - Startrail Chuva de Meteoros - Eduardo Placido Santiago / EXOSS |
Muitas vezes uma chuva de meteoros ocorre quando a Terra intercepta a órbita com os detritos deixados por um cometa que passou pela nossa órbita. Neste caso, os meteoros são pedaços desprendidos dos cometas, e as datas em que estas chuvas de meteoros ocorrem tornam-se previsíveis. Também ocorrem chuvas de meteoros por detritos deixados por asteroides (EXOSS, 2020)[1].
Em uma chuva de meteoros, é medida a taxa horária de meteoro, que é o número de meteoros por hora. Geralmente uma chuva dura mais de um dia, ou seja, no início da atividade é observado um número pequeno de meteoros e aos poucos vai ocorrendo um acréscimo nos meteoros registrados para o radiante, conforme a Terra cruza o caminho dos detritos deixados ali. Em seguida ocorre o pico máximo da atividade, e por fim, o decréscimo na ocorrência dos meteoros visualizados. Desta forma é importante observar o mesmo chuveiro em mais de um dia para poder registrar o fenômeno (como será abordado mais adiante).
O nome das chuvas de meteoros é dado de acordo com a constelação ou estrela em que está o radiante e é definido pela Comissão de Meteoros da IAU - International Astronomical Union.
3. COMO OBSERVAR UMA CHUVA DE METEOROS
Hoje existem várias formas de observar e registrar meteoros, são elas: através de fotografia, vídeo, antenas de rádio, telescópio e a observação visual[2]. Trataremos nesse artigo sobre a observação visual de meteoros, pois é uma atividade disponível a todos, com gastos praticamente zero, prazerosa e gratuita, já que o céu está ali disponível para nosso aprendizado. É nosso laboratório colaborativo.
As dicas descritas aqui são citações de conselhos e instruções publicadas em Mourão (2004), Boletim Observe! do NEOA “José Brazilício de Souza”[3] - NEOA JBS , International Meteor Organization - IMO[4] e American Meteor Society - AMS[5].
3.1 Métodos de observação e registros
Entre os métodos de coleta de dados propostos pela IMO[6], o Núcleo de Enxames da Comissão de Meteoros usará o método de contagem de meteoros. Como o próprio nome diz, iremos “contar” o número de meteoros visualizados nos radiantes ativos, assim como meteoros do antélio e esporádicos. Para uma maior precisão é recomendado observar o radiante um dia antes, durante e um dia depois do pico máximo, como tudo está em movimento, pode ocorrer de uma atividade ser observada com maior intensidade em um dia que não é considerado com máxima atividade.
A taxa horária zenital - THZ de um radiante varia com sua altura no céu, radiantes próximos ao zênite (ponto no céu em cima de nossa cabeça) tem uma THZ máxima. Radiantes com alturas que variam entre o horizonte e o zênite tem valores diferentes, quanto mais próximo do horizonte menor é atividade observada de meteoros. Essa posição varia com a latitude do observador.
Vamos coletar o valor da magnitude dos meteoros registrados e, para termos precisão no registro, é importante gravar a magnitude de estrelas próximas ao radiante ou estrelas conhecidas. Elas serão nossas referências. Os mapas do céu disponibilizados pelo Núcleo de Enxames trarão como referência o valor da magnitude de algumas estrelas.
Neste primeiro momento as contagens devem ser organizadas de forma sequência, como demonstrado na Figura 3.
Para auxiliar nas anotações será fornecido um formulário de campo e um mapa do céu no site[7] da comissão para cada campanha com instruções de preenchimento do formulário de campo.
 |
Fig. 3 - Formulário de observação de campo - Comissão de Meteoros / Núcleo de Enxames |
3.2 Observação de meteoros para observadores iniciantes
O check-list abaixo é um guia para uma boa sessão de observação.
● De preferência, procure um local no interior da sua cidade, afastado das luzes poluentes da cidade;
● Para auxiliar nas anotações, tenha em mãos um lápis e uma prancheta;
● O local de observação deve ter um horizonte disponível, sem barreiras visuais ou casas distantes com luzes acesas;
● Quanto mais escuro for, melhor será adaptação dos nossos olhos, possibilitando ver mais estrelas e meteoros com o brilho menor;
● Evite luzes do carro e celular;
● Leve uma lanterna com luz vermelha. Ela ajudará iluminar o local e as folhas de anotação;
● Tenha uma cadeira confortável;
● Esteja agasalhado, as madrugadas são úmidas e frias, até mesmo em dias mais quentes;
● Leve alimento e bebida;
● Identifique a posição do radiante no céu;
● Esteja sempre atento! A velocidade com que os meteoros se acendem e se apagam é rápida, muitos não chegam a brilhar mais do que um segundo;
● Conte o número de meteoros pertencentes ao radiante. Meteoros que não pertencem ao radiante classifique como esporádico;
● Organize as suas contagens em intervalos como mencionado acima;
● Anote outras informações relevantes, por exemplo, condições climáticas (indique também o horário que isso aconteceu, barreiras visuais, período de pausa na observação, magnitude limite das estrelas;
● Se a região do radiante estiver encoberta por uma nuvem, observe a região mais próxima e anote o horário e o local do céu que você observou;
● Dedique pelo menos uma hora efetiva de observação.
3.3 Observação de meteoros para observadores experientes
Para os observadores experientes, seguir as instruções acima e realizar a contagem de meteoros e estimativa de brilho por radiante registrado. Como já mencionado, será fornecido mapa do céu com a magnitude de estrelas selecionadas. No mapa aparecerão círculos que indicam a posição dos radiantes ativos com as abreviaturas padrão da Comissão de Meteoros da IAU - International Astronomical Union[8]. Ao observar um meteoro, identifique seu possível radiante, estime o brilho com base nas estrelas de comparação. Além do lápis e a prancheta, uma maneira de otimizar o registro é usar um gravador de voz e transcrever suas observações após a sessão.
3.4 Pertence ou não pertence ao radiante
Como definir se um meteoro pertence a um determinado radiante? Os meteoros podem ser visto em qualquer região do céu, o que devemos avaliar é a direção do movimento, sua trajetória vai apontar diretamente para o radiante. Se um meteoro não aponta para nenhum radiante ativo, ele é classificado como esporádico.
4. RELATÓRIO DE OBSERVAÇÃO
Para muitos, esse exercício de registro de uma sessão de observação será a primeira vez, aos poucos vamos aperfeiçoar nossas técnicas. Para o momento, foi criado um formulário no Google Forms e que estará disponível no site da Comissão de Meteoros (https://uba-meteoros.blogspot.com/) e dentro das publicações das campanhas. Lá teremos todas as instruções para registro de suas observações: Radiante observado, nome e contato do observador, sítio de observação, registro dos meteoros para cada radiante ativo naquela sessão e comentários gerais. Nos próximos artigos abordaremos como proceder para a publicação no banco de dados da IMO
5. CONCLUSÃO
Teremos muito aprendizado pela frente, aproveite as próximas chuvas de meteoros para praticar. Serão ótimas oportunidades para conhecer os céu, as principais estrelas e entender como os meteoros riscam o céu e são projetados de seus respectivos radiantes.
Convide seus amigos, familiares ou seus colegas do clube de astronomia, uma noite de observação em grupo é muito mais divertida do que ficar sozinho.
Agradecimentos especiais ao Alexandre Amorim (NEOA-JBS), Camila Vitoria Kesler Dalligna (Apontador de Estrelas) e Luciana Fontes (EXOSS).
Bons céus a todos.
REFERÊNCIAS
MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.
MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Manual do astrônomo: uma introdução à astronomia observacional e à construção de telescópios. 6. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
[1] EXOSS - Exploring the Southern Sky. Chuva de Meteoros. Disponível em http://press.exoss.org/Glossario/chuva-de-meteoros-2/. Acesso 01 de julho de 2020.
[2] IMO - International Meteor Organization. Observations. Disponível em https://www.imo.net/observations/. Acesso 02 de julho de 2020.
[3] Boletim Observe! Os meteoros eta-Aquarídeos. Ano II. Número 5. Maio de 2011, p. 80. Disponível em https://www.geocities.ws/costeira1/neoa/. Acesso 01 de julho de 2020.
[4] _______. Visual Observations. Disponível em https://www.imo.net/observations/methods/visual-observation/. Acesso em 01 de julho de 2020.
[5] AMS - American Meteor Society. Visual Observing. Disponível em https://www.amsmeteors.org/ams-programs/visual-observing/. Acesso 02 de julho de 2020.
[6] IMO - International Meteor Organization. Filling a Report. Disponível em https://www.imo.net/observations/methods/visual-observation/major/report/. Acesso 02 de julho de 2020.
[7] Comissão de Meteoros. Núcleo de Enxames. uba-meteoros.blogspot.com
[8] Comissão de Meteoros da IAU. Disponível em https://www.ta3.sk/IAUC22DB/MDC2007/. Acesso 03 de julho de 2020.
“Sempre passe adiante o que você aprendeu” - Mestre Yoda / Star Wars